quinta-feira, 31 de maio de 2012

NAS TUAS BARBAS



ESTE TEXTO DEVE SER LIDO COM BOA VONTADE, NA PENUMBRA, EM POLTRONA CONFORTÁVEL. RECOMENDA-SE MUSICA SUAVE E WISKY ESTRANGEIRO.

“Era um amor tranqüilo, porque correspondido.
Amava aquele homem cujo corpo era o abrigo de uma dádiva fazendo parte de sua vida.
Abnegou-se à dádiva: deu-se em crédito em troca da aleluia de ir vivendo ao lado daquele homem. Recebia as noites com extrema calma e gratidão. Ao leito percebia um leve rumor das estrelas, um quase palpável silêncio apenas entrecortado pelo farfalhar das folhas lá fora. E então inebriava-se da loção de pinho misturando-se com o cheiro do homem a seu lado.
 - O perfume da loção combina tanto com você! – dizia. Os olhos brilhantes.
Riam de prazer; do prazer de estarem juntos. Amavam-se. E então ela deixava de perceber o leve silêncio das estrelas.
- Quero viver para sempre! – murmurava.”
         
INFELIZMENTE NÃO ESTAVAM EM HOLLYWOOD, RAZÃO PORQUE A ESTÓRIA CONTINUA. APROVEITE O INTERVALO PARA TOMAR UM CAFEZINHO.

“Setembro chegava e ele faria 33 anos.
Em festa, presenteou-o com um barbeador.
A primeira barba com 33 anos foi também a inauguração do presente. Animado, ele lhe disse que passasse as mãos pelo rosto liso. Riram-se da infantilidade dessa animação de dar e receber, mas logo o presente incorporou-se à rotina. Tornou-se comum ela despertar com o leve zumbido do aparelho.
Certa manhã, entretanto, o zumbido a incomodou como uma mosca dentro do ouvido. Cobriu-se aborrecida e acabou por adormecer.
Pela primeira vez deixou de tomar o café da manhã com o marido.”
        
É GANCHO, GENTE. PÕE AI UMA MÚSICA DRAMÁTICA E CONTINUE EM SINTONIA.

“Levantou-se mais tarde e, meio zonza, dirigiu-se para o banheiro. O sol já andava alto e um feixe de luz, como um holofote, clareava a pia, fazendo brilhar pequenos pontinhos pretos.
Intrigada, examinou os pontinhos. A medo, passou a ponta do dedo indicador nas bordas da pia. Examinou demoradamente e, enfim, percebeu: eram pedacinhos da barba do marido.
Quase podia tocar o ar parado: tensa, toda ela, teve, por momentos, a percepção do sem começo e sem fim.  Irremediável percepção de si mesma: um pontinho descartável do todo de uma barba que cresceria infinitamente se não fosse cortada. Era um segmento do tempo; era um pontinho preto a ocupar um espaço e um lugar.
Olhou-se no espelho.”

UMA BALEIA MERGULHA LENTAMENTE NO MAR CALMO.

“Eram noivos de riso fácil, subindo a ladeira estreita, calçada de paralelepípedos, numa tarde de domingo. O morno do ar subindo pelas pernas, umedecendo as mãos.
Com um rangido de dobradiça, uma velha abriu a janela. Tinha os olhos franzidos e guardava nas dobras do rosto uma vida franzina, toda ela debruçada na janela.
Aquela janela não existiria sem a velha.
Desde quando estaria ela na janela, espreitando a balbúrdia da rua que passava e passava enquanto a vida ficava encolhida na fissura dos olhos franzidos?
Parada, teve o impulso de perguntar: - As prímulas ficaram em botão? Onde? Abotoadas em seu colo?
Mas não teve coragem. Sua felicidade era tão grande, tão segura parecia nas mãos dadas ao noivo, que não teve coragem.

SIRENE. ATENÇÃO  SUBMARINO: EMERGIR IMEDIATAMENTE!

“Permaneceu defronte o espelho e fixou seu próprio colo. Já não tão alvo, já nem tão cheio, arfava e deixava-se percorrer por um calafrio de dúvida: aquela pobre velha, seria ela?
Como ela, a velha teria sido feliz depositando a vida nas barbas do marido, todo dia raspada e jogada e jogada?
Desatou em profundo suspiro.
Lento, imenso como um fardo de dívidas desmoronando a dádiva de estar viva ao mesmo tempo que o ser amado. Não havia arbitrariedade em sua existência: sua vida era um filme cuja estória já estava terminada. Agora ela sabia; via através das fímbrias de sua própria vida, o projetor dela mesma.
Fez a água jorrar da torneira  com abundância e limpou a pia com frenesi até que não restassem vestígios da barba: até que ouvisse o clique do projetor se desligando.” 

`A tardinha recebeu o marido que chegava do trabalho: um homem de 33 anos. E imberbe!

Todos os direitos reservados AKEMI WAKI

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